segunda-feira, 23 de março de 2026

Irreconhecível.

Hoje te olhei no espelho.

Olhei e não me vi, por isso te olhei.

Te conheço mas não me reconheço.

Não consigo me reconhecer.

Hipócrita ou mentiroso.

Não sou eu.

Me perdi.


Me perdi em alguém, que

Na esperança de ir além,

Quis ser outro alguém.

E de fato me tornei.


Por isso aquele que vejo não sou eu.

Era eu.

Será eu.

Mas não sou eu.

Seja pelo minúsculo atraso da luz

em direção ao espelho

refletida aos meus olhos.

Continua não sendo eu.


E nem é quem eu prometi ser.

Me deixei enganar por quem eu confiava.

Por quem confiei a minha vida.

Você, ali na minha frente.


Me olha como quem soubesse que,

mesmo depois de tudo,

não somos a mesma pessoa.


Quem é o que prometermos ser?

Eu ou você?

Um pedaço de cada?

Quem traiu quem?

Sou eu Bentinho e você,

Capitu?



quinta-feira, 29 de abril de 2021

Libertando o prisioneiro.

Depois de muito tempo te libertei um pouco. Tendo esperança que você mudou, melhorou.
É com pesar que descubro que não, que tudo ainda funciona da mesma forma que antes. 
Que a tua linguagem é dor, não por mal, mas por ser a única forma de comunicação que conhece.
E não reclamo, a culpa é minha, de nunca ter lhe apresentado outras formas.
Mas isso não muda a dor que traz.

Por algum tempo, havia desistido de ti, te esquecido completamente.
Te deixei na solitária, sem luz, sem alimento, sem atenção.
Esperei que tivesse definhado, virado pó. 
Preocupado contigo e com tua sanidade,
te tranquei a sete chaves.

Te livro por instantes, como quem leva um cão pra passear e fico bravo por juntar os dejetos que produz, sendo que é o processo natural da tua existência.
Agora eu entendo que é assim por ser, e não por uma possível relação de ódio.
De qualquer forma, não conseguimos nos comunicar.
Eu falo três línguas diferentes e nenhuma delas é a sua.

Com grande injustiça, lhe digo, se prepare pra voltar para o cárcere.
Essa nossa relação parece que nunca vai ser saudável e não podemos conviver.
Eu posso não ter tanto poder quanto você, mas tenho poder suficiente pra manter preso.
Esquecido e isolado.
Quem sabe no futuro me esqueça de tudo o que causou.
Quem sabe sinta saudade de ti e queira lhe ver mais uma vez.
Quem sabe tenha aprendido a comunicar contigo.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

O Enigma

Mais uma noite sem dormir. Dessa vez foram as vozes que não me deixaram em paz. Pequenos sonhos sem sentido, pequenas lembranças do corpo mortal, nada me deixava penetrar naquele mundo tranquilo. Já tem dias que de tranquilo esse mundo tem muito pouco. Mensagens me vem, sempre não tão claras, não só em sonho mas em realidade também.

As mensagens vem como enigma, com uma mensagem indecifrável, um alerta. Os sensos ficam aguçados, adrenalina corre pelo corpo, pronto pra luta. Qual reação? Desconhecida, depende da ação. Que ação?

Nada novo, nada desconhecido, porém diferente. As mensagens vão me guiando por um caminho novo, que sigo com receio, um pouco de medo. Será algo bom? Será algo ruim? Complexo.

O medo vira paranoia. Olho e olho e nada muda. Deveria?

Vou coletando as peças do quebra-cabeça, o enigma que feito em minha cabeça. Como num mistério de Dan Brown, guiado por filósofos renascentistas. Não são dos meus, não se importavam pelos meus. Mas e o contexto? Justifico ações dos outros pra esquecer as minhas.

Vivo a vida de outros pra esquecer a minha. Varias vidas vividas aos poucos numa vida mal vivida.